Você sabia que existe uma máquina capaz de assumir temporariamente o trabalho do coração e dos pulmões? Ela se chama ECMO e é uma das tecnologias mais sofisticadas da medicina intensiva.
Neste artigo, a Dra. Vanessa Guimarães, cardiologista pediátrica e especialista no manejo de ECMO (ECLS Specialist) desde 2012, com formação no Canadá, explica o que é a ECMO em crianças, quando ela pode ser necessária e por que dizemos que a ECMO não é o tratamento de uma doença, e sim uma forma de suporte.
O que é ECMO?
ECMO é a sigla em inglês para Extracorporeal Membrane Oxygenation, ou oxigenação por membrana extracorpórea. É um sistema que retira o sangue do paciente, oxigena esse sangue fora do corpo e o devolve ao organismo, permitindo que o coração e/ou os pulmões descansem enquanto a equipe trata a causa do problema.
Quando a ECMO é necessária?
Pense em uma criança com insuficiência respiratória muito grave. Existem várias formas de ajudá-la: oferecer oxigênio, usar ventilação não invasiva e, nos casos mais graves, fazer a intubação e a ventilação mecânica. Mas há situações em que, mesmo com todas essas estratégias, os pulmões não conseguem fazer adequadamente as trocas gasosas: o oxigênio não chega como deveria ao sangue ou o organismo não consegue eliminar o gás carbônico.
Existe ainda outro cenário: o coração pode estar tão comprometido que, mesmo com medicamentos para melhorar a força de contração, não consegue gerar fluxo de sangue suficiente para os órgãos. É em alguns desses pacientes extremamente graves que a ECMO pode ser considerada.
Como a ECMO funciona?
O sangue do paciente é retirado por meio de cânulas conectadas a um circuito fora do corpo. Nesse circuito, ele passa por uma bomba e por uma membrana que funciona como um pulmão artificial: ali o sangue recebe oxigênio e elimina o gás carbônico. Depois, retorna ao organismo.
Dependendo de como o circuito é montado, a ECMO oferece suporte predominantemente pulmonar ou suporte ao coração e aos pulmões ao mesmo tempo.
ECMO VV e ECMO VA: qual a diferença?
- ECMO venovenosa (VV): o sangue é retirado do sistema venoso e devolvido ao sistema venoso. O suporte é principalmente para os pulmões; o coração continua responsável por bombear o sangue.
- ECMO venoarterial (VA): o sangue é retirado do sistema venoso e devolvido ao sistema arterial. Além da oxigenação, oferece suporte circulatório. Pode ser usada em falência cardíaca grave, choque cardiogênico e alguns cenários de parada cardiorrespiratória.
ECMO em crianças com cardiopatias congênitas
Na pediatria, e especialmente nas crianças com cardiopatias congênitas, a ECMO tem características muito específicas. Ela pode ser necessária antes de uma cirurgia cardíaca, durante uma piora clínica importante ou depois da cirurgia, quando o coração precisa de mais tempo para se recuperar. Saiba mais sobre a UTI pós-operatória.
ECMO não cura: ela é uma ponte
Este é um dos conceitos mais importantes: a ECMO não cura o coração nem os pulmões. Ela mantém o organismo funcionando enquanto a equipe trata aquilo que levou esses órgãos a falharem. Por isso falamos tanto em ponte:
- Ponte para a recuperação: quando se espera que o órgão recupere sua função;
- Ponte para a decisão: quando é preciso tempo para definir o próximo caminho;
- Ponte para um dispositivo de assistência ventricular, como o ventrículo artificial;
- Parte da estratégia até o transplante, em pacientes cuidadosamente selecionados.
Os cuidados com o paciente em ECMO
Precisar de ECMO não significa estar fora de risco. Pelo contrário: em geral, trata-se de um paciente criticamente grave, e manter alguém em ECMO exige uma equipe altamente especializada. Não basta olhar para a máquina; é preciso avaliar continuamente:
- Se o cérebro está recebendo fluxo adequado;
- Como estão os rins, o fígado e a circulação das extremidades;
- A coagulação, a presença de sangramentos ou de trombos;
- A função do coração e a recuperação dos pulmões.
Um dos equilíbrios mais delicados é a anticoagulação. Como o sangue circula por um sistema que não pertence ao organismo, há tendência à formação de coágulos, e por isso costuma ser necessário anticoagular. Ao mesmo tempo, esses pacientes podem ter risco importante de sangramento. São decisões tomadas continuamente, muitas vezes hora a hora, integrando dados clínicos, laboratoriais, hemodinâmicos e de imagem.
Quando a ECMO é retirada?
Desde o início do suporte, a equipe avalia se o coração ou os pulmões estão recuperando a função e conseguem reassumir progressivamente o trabalho da máquina. Esse processo se chama desmame. Quando o organismo demonstra que consegue manter circulação e oxigenação adequadas sem o suporte, a retirada da ECMO é planejada.
ECMO em uma palavra: tempo
“Eu gosto de explicar a ECMO com uma palavra muito simples: tempo”, resume a Dra. Vanessa. Tempo para recuperar, para tratar, para avaliar e, algumas vezes, para definir qual será o próximo caminho.
Mas, por trás de toda essa tecnologia, existe algo ainda mais importante: uma equipe preparada para entender não apenas o circuito, mas principalmente o paciente conectado a ele. ECMO é tecnologia, mas, acima de tudo, é cuidado intensivo altamente especializado. Conheça a área de assistência circulatória mecânica.
Perguntas frequentes
ECMO é a mesma coisa que ventilação mecânica?
Não. A ventilação mecânica ajuda os pulmões a respirar; a ECMO oxigena o sangue fora do corpo e pode também dar suporte ao coração, sendo usada quando a ventilação já não é suficiente.
Por quanto tempo uma criança pode ficar em ECMO?
A ECMO é usada, em geral, em situações agudas e por períodos mais curtos. O tempo depende da evolução de cada paciente e é reavaliado continuamente pela equipe.
ECMO trata a doença?
Não. Ela mantém o organismo enquanto a causa é tratada. Por isso é chamada de ponte.
Tem dúvidas sobre o tratamento do seu filho? Agende uma consulta com a Dra. Vanessa Guimarães.


