Imagine um coração tão enfraquecido que, mesmo com todos os medicamentos disponíveis, já não consegue bombear sangue suficiente para o corpo. Durante muito tempo, essa situação tinha poucas saídas. Hoje, a medicina conta com uma tecnologia capaz de ajudar esse coração a continuar trabalhando: o ventrículo artificial.
Neste artigo, a Dra. Vanessa Guimarães, cardiologista pediátrica com atuação em transplante cardíaco e assistência circulatória mecânica, explica o que é o ventrículo artificial em crianças, como ele funciona, quando é indicado e por que ele representa uma verdadeira ponte para novas possibilidades.
O que é o ventrículo artificial?
O nome técnico é dispositivo de assistência ventricular (em inglês, VAD – ventricular assist device). Apesar de ser popularmente chamado de “coração artificial”, ele não substitui o coração. Trata-se de um dispositivo mecânico que ajuda um dos ventrículos — ou, em algumas situações, os dois — a manter o fluxo de sangue de que o organismo precisa.
Em outras palavras, o coração da criança continua lá, e o dispositivo trabalha junto com ele, assumindo parte do esforço que o músculo cardíaco já não consegue realizar sozinho.
Quando o ventrículo artificial é indicado em crianças?
O dispositivo é pensado para uma situação muito grave: a insuficiência cardíaca avançada. Existem crianças cujo coração fica tão comprometido que os medicamentos deixam de ser suficientes para manter uma circulação adequada. Isso pode acontecer, por exemplo, em casos de:
- Cardiomiopatias (doenças do músculo do coração);
- Miocardite grave (inflamação do músculo cardíaco);
- Falência do coração após determinadas cirurgias cardíacas;
- Outras formas de insuficiência cardíaca avançada.
Nesses cenários, pode ser necessário um suporte mecânico para a circulação — e é aí que entram os dispositivos de assistência ventricular.
Como funciona o dispositivo de assistência ventricular?
De forma simplificada, o dispositivo recebe o sangue que chegaria ao ventrículo e utiliza uma bomba mecânica para impulsioná-lo para a circulação. Conforme o lado do coração que precisa de ajuda, ele recebe nomes diferentes:
- LVAD: suporte ao ventrículo esquerdo;
- RVAD: suporte ao ventrículo direito;
- Assistência biventricular: quando os dois lados do coração precisam de suporte.
O conceito de “ponte”: por quanto tempo o dispositivo é usado?
Uma das perguntas mais importantes é por quanto tempo a criança vai precisar do ventrículo artificial. A resposta depende do objetivo do tratamento, e é aqui que entra o conceito de ponte:
- Ponte para a recuperação: o dispositivo sustenta a circulação enquanto damos tempo para o coração se recuperar.
- Ponte para o transplante: quando a doença é avançada e não se espera recuperação suficiente, o dispositivo mantém a criança em melhores condições até a chegada de um coração compatível.
- Ponte para a decisão: tempo para a equipe definir o melhor próximo passo.
- Uso prolongado: em algumas situações, o paciente pode permanecer com o dispositivo por tempo indeterminado.
Saiba mais sobre o transplante cardíaco pediátrico e sobre a assistência circulatória mecânica.
Qual a diferença entre ventrículo artificial e ECMO?
Essa é uma dúvida muito frequente entre as famílias. A ECMO também oferece suporte circulatório, mas costuma ser usada em situações mais agudas e por períodos mais curtos. Além disso, dependendo da configuração, ela pode substituir também a função dos pulmões, oxigenando o sangue e retirando o gás carbônico.
O ventrículo artificial tem outra proposta: é direcionado principalmente para ajudar a circulação e permite um suporte por períodos muito mais longos. Dependendo do dispositivo e da condição clínica, as crianças podem ficar acordadas, fazer fisioterapia, brincar e até caminhar durante o tratamento.
Isso muda completamente o conceito de suporte circulatório. O objetivo não é apenas manter a criança viva, mas preservar músculos, nutrição, desenvolvimento e função neurológica, preparando-a da melhor forma para a recuperação, para um transplante ou para seguir com o dispositivo. Entenda melhor a ECMO no artigo ECMO em crianças: a máquina que mantém a vida.
Por que o ventrículo artificial é mais desafiador em crianças?
Porque uma criança não é um adulto pequeno. A cardiologia pediátrica atende desde recém-nascidos com poucos quilos até adolescentes, e o tamanho do paciente, a anatomia do coração, o tipo de cardiopatia e a quantidade de fluxo necessária mudam completamente de um caso para outro.
Nas cardiopatias congênitas existe ainda outro desafio: nem sempre a circulação daquela criança conta com dois ventrículos funcionando da forma habitual. Por isso, a escolha do dispositivo e da estratégia precisa ser extremamente individualizada.
Existem riscos?
Sim. A assistência ventricular é uma terapia altamente complexa e exige acompanhamento cuidadoso de diversos fatores:
- Anticoagulação e risco de sangramento;
- Formação de trombos (coágulos);
- Infecções;
- Função dos outros órgãos;
- Funcionamento do próprio dispositivo.
Por isso, esses pacientes precisam ser acompanhados por equipes altamente especializadas em insuficiência cardíaca avançada e suporte circulatório mecânico.
Uma tecnologia que oferece tempo e possibilidades
A evolução tecnológica tem sido extraordinária: os dispositivos estão cada vez menores, mais eficientes e mais adaptados às necessidades das crianças. Esse é, provavelmente, um dos campos mais fascinantes da cardiologia pediátrica atual.
“Eu já vivi várias situações em que o ventrículo artificial salvou a vida das crianças. No dia a dia da UTI cardiológica são muitos casos desafiadores, mas muitos com final feliz”, conta a Dra. Vanessa Guimarães.
Quando falamos em ventrículo artificial, não estamos falando apenas de uma máquina, mas de uma ponte: uma tecnologia capaz de oferecer tempo e possibilidades para um coração que precisa de ajuda para continuar.
Perguntas frequentes
Ventrículo artificial é a mesma coisa que coração artificial?
Não exatamente. O ventrículo artificial é um dispositivo que ajuda o coração a bombear o sangue, sem substituí-lo. O coração da criança continua no lugar.
A criança com ventrículo artificial pode se movimentar?
Dependendo do dispositivo e da condição clínica, sim. Muitas crianças ficam acordadas, fazem fisioterapia, brincam e até caminham durante o suporte.
O ventrículo artificial substitui o transplante?
Em muitos casos ele funciona como ponte até o transplante. Em outros, permite a recuperação do próprio coração ou o uso prolongado do dispositivo. A estratégia é definida caso a caso pela equipe especializada.
Ficou com alguma dúvida sobre o coração do seu filho? Agende uma consulta com a Dra. Vanessa Guimarães.


